Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006

Nuno Monteiro - Gestão escolar

A actual equipa ministerial da Educação tem actuado em quantidade e qualidade. O futuro vai comprovar isso mesmo.
Tocou em muitas das áreas determinantes no sector: o reordenamento da rede escolar, nomeadamente do 1. Ciclo, a Escola a Tempo Inteiro, as aulas de substituição, os exames no final dos vários ciclos (prometidos) e o Estatuto da Carreira Docente.
Neste último, introduziu as alterações muito determinantes (e essenciais), apesar de “pecar” no processo de avaliação docente. Este é demasiado exigente e complexo, pelo que irá resultar num sugadouro de recursos na escola. Poderia ser muito mais simples não se ficando “preso” ao sistema de avaliação dos restantes funcionários públicos. A função docente é significativamente diferente das restantes, justificando uma avaliação mais simples.
A medida de avaliação dos docentes por parte dos pais cairá, sendo substituído por uma qualquer medida tipo “livro de reclamações”.
Todo este processo irá para a frente, validado pela opinião pública impulsionada pelas imagens televisivas do “reclamatório” corporativo, em greves e manifestações infantilizadas tipo meninas vestidas de preto amuadas que gritam “Ministra, não gostamos de ti”.
De entre tudo o que é essencial, ficou de fora uma área importante: a Gestão Escolar.
Não entendemos bem esta opção. As restantes medidas apenas poderão resultar caso, nas Escolas, estejam equipas de Gestão fortes. Com capacidades várias e independentes de corporações que são, por si só, apenas uma parte dos interessados no processo de Gestão escolar.
Não vemos o novo ECD vingar enquanto nas Escolas estiverem, na sua Gestão, professores (e não gestores) eleitos por professores. Professores que lideram os seus colegas, seus eleitores. Professores que foram colegas e que deverão voltar a sê-lo no futuro, no final do seu mandato. Como pode haver boa Gestão nestas condições?
Gestão Democrática é algo definido na lei e que é interpretado como Gestão das Escolas por professores eleitos pelos colegas. Reduz-se a Gestão Escolar à Gestão de Professores e ignoram-se todos os outros interessados, interesses e objectivos. Democracia ateniense pura: uma sociedade “muito democrática” em que uns votam e os outros são escravos.
Vejamos outros interessados sem intervenção na gestão (que não seja “virtual”):
1)Os contribuintes, que suportam financeiramente o sistema. Que elegeram uma tutela para determinar políticas e faze-las cumprir. Como é possível que a Gestão Escolar não inclua, na escolha dos respectivos elementos, representantes dos contribuintes?
2)As famílias, que são clientes (tanto mais directos quanto mais novas forem as crianças e alunos).
3)O pessoal não docente, que trabalha na Escola e que, com o aumento da complexidade desta, até inclui elementos com níveis de formação elevados.
4)Os últimos, que são os primeiros, os alunos.
Sem prejuízo da eleição dos conselhos técnicos (pedagógicos e consultivos), não vejo qualquer interesse na manutenção do “status quo” na Gestão Escolar que sobrevive (quase exclusivamente) só em Portugal, tanto ao gosto da corporação docente, sindicatos e partidos da esquerda.
A minha sugestão:
A Gestão Escolar deveria passar a ser entregue, em exclusividade, a Gestores Escolares de carreira. Que podem ou não ser docentes. Gestores com especialização em gestão escolar ou professores com formação extra em gestão. Não importa. Os que forem melhores.
Os gestores escolares, quando professores, não poderão nunca serem gestores numa escola onde leccionaram. Assim, evitaremos relações e dependências que prejudiquem a sua tarefa.
Não estarão numa escola mais do que um determinado período (dois mandatos de 4 anos). Escolherão, dentro da escola, os seus assessores. Apresentam um programa para os 4 anos, podendo, apenas, ser reconduzidos uma vez.
 Dou “de barato” a eleição. Mantendo a tal escolha “democrática”. Mas com a participação de todos os interessados atrás referidos. Não apenas os professores. Incluindo a tutela, com um peso forte. O peso dos docentes deverá baixar significativamente nesse processo eleitoral. As candidaturas (programas) serão apresentadas pessoalmente e poderá, desde logo, ser apresentado o núcleo forte da gestão (os acessores, da escola) como elemento de peso na escolha.
 Será muito complicado implementar uma solução como esta? Ou estará o Ministério preso a qualquer compromisso nesta área? Não achamos que o que de bom foi feito nas outras áreas possa ter sucesso nas actuais condições de gestão. E porquê?
 Porque, assim, a Escola manter-se-há como uma Escola dos professores e para os professores e não como uma Escola da Comunidade para os Alunos.
 Nuno Monteiro
 
publicado por Carlos A. Andrade às 19:25
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6 comentários:
De Ribeiro Mateus a 13 de Outubro de 2006 às 12:58
É tão fácil teorizar sem conhecer a realidade. Já hoje, o órgão máximo das escolas, é a Assembleia representativa da comunidade educativa. No entanto, é muito difícil fazer representar os paizinhos ou a autarquia, para já não falar dos representantes dos interesses económicos, sociais e culturais. Em muitas escolas nem existe associação de pais. E as respectivas Confederações representam uma ou duas dezenas de milhar num universo de oito ou nove centenas de milhar. Pouco ou nada representam.
Quanto ao Director Escolar, proposto pelo senhor Monteiro e pelo PPD /PSD, o tal gestor que pode nem ser professor, o que vai gerir. Os dinheiros todos consignados ? E, sem experiência da vida concreta duma Escola, acaso é capaz de se orientar nas complexas questões pedagógicas, afinal as que ocupam de 80 a 90% do tempo dum gestor escolar.
O senhor Monteiro parece estar a fazer o frete a alguém. Mas não está, concerteza, a pensar nas escolas públicas e na solução dos seus problemas.


De Nuno Monteiro a 14 de Outubro de 2006 às 11:13
Gestão profissional, representação (na escolha) de quem sustenta o sistema (representante dos contribuintes e eleitores). Evoluções necessárias.
Claro que é capaz de se orientar. Até porque terá um conselho consultivo para o apoiar nessas matérias.
E mesmo que existam todas essas dificuldades, nem são inultrapassáveis , nem são justificativas para a manutenção do (mau) sistema actual que faz transparecer que Gerir uma Escola é o mesmo que Gerir Professores.
E que só os professores é que podem escolher quem os gere e apenas de entre os seus...
Como escrevi: uma Escola dos Professores para os professores...


De Vendetta a 17 de Outubro de 2006 às 17:50
O sr. ou é CEGO ou então tem cota no Ministério da (DES)EDUCAÇÃO porque os professores infelizmente como outras classes estão a sofrer PERSEGUIÇÕES por parte deste Governo=J.S.Pinto de Sousa porque lhe fizeram frente as injustiças que lhes estão a a fazer-Desaparecimento de Professores das Listas e inclusão de outros a titulo de contrato- e o mesmo acontece com outras profissões por exemplo os Militares, os Juizes etc. que por terem feito frente a este Governo AUTISTA estão a ver os seus direitos de Cidadãos atropelados por umas espécies de ministros que nem para varrer as ruas serviam nos países EUROPEUS pois isto aqui é a AFRICA da Europa isto sem querer ofender os Africanos que se os tivessem nos seus países de origem de certeza que os já tinham pendurado pelo pescoço numa praça qualquer.PORTUGAL tem de acordar e correr com estes F.D.P. que estão no Governo do J.S:C.PINTO de Sousa pois é assim que gosto de tratar esta espécie de 1ºm.


De Maria Borges a 18 de Outubro de 2006 às 23:57
A qualidade da "actual equipa ministerial da Educação" traduziu-se em transformar professores que trabalhavam na Escola e para a Escola horas que nunca contabilizavam (porque não havia sucesso nesta profissão sem amor) em professores que trabalharão até às 35 horas e só! Não chegará para fazer um trabalho bem feito, mas quem foi que disse que "a equipa ministerial" queria um trabalho bem feito?
A partir do momento em que assim é até um sapateiro (que era a profissão do meu avô e que eu respeito muito) pode vir gerir uma escola!
Maria Borges


De Anónimo a 21 de Outubro de 2006 às 10:04
Os que trabalhavam o devido e mais do que o devido, tal como refere, continuarão a faze-lo, sem alterações...
Para esses não há novidade nenhuma. Nada se acrescenta.
Para os outros, sim. Terão de dar algo mais a quem lhes paga. Afinal quem protesta muito deverá ser deste grupo...
O sapateiro, se tiver uma formação adequada (em Gestão Escolar), as características pré-definidas e apresentar uma boa proposta à Escola (melhor que as restantes que forem apresentadas) porque não há de ser um bom Gestor?
Melhor que um professor (por vezes sem perfil e formação) "preso" aos interesses corporativos e aos grupos que o elegeram?


De Maria Borges a 22 de Outubro de 2006 às 00:55
Posso assegurar-lhe que os professores não trabalham hoje com a vontade e com a capacidade de sacrifício com que o faziam antes desta lamentável e inglória discussão pública. A novidade é, além de um ataque injustificado na enormíssima maioria dos casos, um estatuto a que nenhum profissional deveria submeter-se. Sou sim "deste grupo", como diz, e em dezoito anos foram mais as vezes que fui trabalhar doente que aquelas que por estar doente fiquei em casa. Sou séria e competente no que faço, os alunos que ao longo dos anos ajudei a encontrar um caminho académico ou apenas um caminho na vida legitimam as minhas opiniões e os meus protestos. As noites perdidas a trabalhar, as preocupações com os alunos que o Estado não protege, as tentativas de minorar as misérias e o abandono em que alguns vivem matando-lhes a fome quando é preciso, meu caro senhor, não se pagam!!! Aliás, pagam-se com a gratidão que os alunos, já adultos, encaminhados, felizes, muitas vezes nos revelam, pagam-se quando voltam à escola para nos ver e dizer que fomos importantes na vida deles!
O que é isso, meu caro senhor, de professores sem formação? Se não têm formação que sistema leviano e ineficaz foi esse que lhe permitiu ser professor? É com certeza o mesmo sistema ineficaz que permite que os que não têm perfil se mantenham na profissão até à loucura, literalmente, o que obviamente também não deveria acontecer.
Respondo ao seu comentário, mas o que deveria fazer era convidá-lo para assistir a uma aula minha, que é um espaço sério, numa escola pública, onde a docente, que sou eu, quer e gosta de ensinar, e os alunos aprendem. Veria, então, que a mim, que sou competente e eficaz no que faço, tanto me faz que a escola seja gerida por este como por aquele. Do que eu de facto não gosto é de ver a minha profissão a ser enxovalhada e comentada por quem dela nada entende, já que eu não comento, por exemplo, o trabalho do meu médico a não ser que ele se revele ineficiente, como não comento o de qualquer outra profissão com a leviandade com que vejo comentar a minha. Quando o meu trabalho não provar ser eficaz existem meios próprios para sobre ele apresentar factos. O mesmo se pode dizer do trabalho de todos os outros profissionais da Educação, já que para isso existem as instituições.
Por falar em "dar algo mais a quem lhes paga", também eu gostava que os Ministros, Secretários de Estado e "esse grupo" me desse mais, que lhes pago soberbamente e nada vejo, mas alegra-me que o senhor veja e não os sinta "presos" a interesses!


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