Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

Paulo Loureiro - Estilo de ditadura?

Esta semana fiquei a saber que corro sérios riscos de, ao mostrar um certo descontentamento, ser carimbado na testa com a marca “comuna”, “pêcê” ou “bloquista”. É o preço de viver numa democracia, que dá direito a qualquer um de dizer aquilo que pensa, incluindo o PM e agora “querido líder” socialista, José Sócrates. Kim faria melhor? Que se cuide aquele delegado que na solidão de um hall de congresso disse a uma câmara de televisão que há muitos problemas que se sentem, mas quando se quer comunicar “para cima” (deduzo que seja em direcção ao Largo do Rato) não se consegue: “Não há comunicação,..., não há reuniões...” Provavelmente, como há dias (Sol) na Câmara de Lisboa, leva uma traulitada do PS, é condenado ao ostracismo e desaparece das fotografias de família. Este método de gestão, não ligado à terra, tem um grande problema: é que se o querido líder se engana, estamos quase todos lixados. Perante a desgraça de uma oposição que é pelo menos igual, senão pior, há que ouvir o timoneiro e esperar ver sinais que agradem. Aí vai ele, que começa! Poucos segundos depois, Portugal já é um problema e a culpa é do estado em que a direita nos deixou. Tudo estragado! Segundo a história, e assim sendo, durante a governação de Guterres (e Sócrates) estava tudo muito bem. Dedução lógica, caso contrário a frase seria “... o estado em que nós e a direita deixámos o país”. Mas não, não é assim a frase. Logo, coloca-se uma questão pertinente: porque nos deixou a direita neste estado? Talvez porque Guterres fugiu no pico do el dorado e o PS recusou o pedido de sua Excelência, o Presidente Sampaio, para formar novo Governo. Mas nada de confusões: este não é mesmo Sampaio que aparece no vídeo do partido durante o congresso! Tendo o PS prescindido do poder, este foi entregue ao povo, que votou nos menos maus. Concluindo, a culpa é dos Portugueses, que por vezes (depende do momento) nunca se enganam! Também é muito esquisito que, sendo assim, tenham fugido. Normalmente as pessoas fogem de algo de que não gostam, de que têm medo, ou quando conseguem superar o Princípio de Peter (quase impossível em política). Faltou dizer que o povo vai nu. Péssimo e fraco sinal para quem governa de modo tão seguro e com maioria absoluta, que a tal direita (comparado o incomparável!) não teve. Curiosamente, a direita foi completamente ignorada, até há poucos dias, reaparecendo precisamente agora, ao ponto de um dos discursos de um socialista na discussão do orçamento fazer dezenas de referências ao líder da oposição e nenhuma ao nome do PM, líder do partido. Na hora do aperto, houve que procurar o inimigo lá fora para encontrar os “amigos” cá dentro. Hugo Chávez é mestre na matéria, com bons aprendizes no médio oriente. Quanto à comparação em si, é falaciosa mas reveladora, bastando substituir “de tanga” por “em situação difícil”. Mera alteração semântica, em que a forma se sobrepõe ao conteúdo (a única coisa que realmente interessa ao país), outra táctica comum. Quanto a resultados, todos os votos menos um não significam unanimidade, mas tão-somente que não há melhor, o que, por si só, não implica que é bom o que simplesmente existe. Para infelicidade dos realistas, entre boa parte dos analistas (mesmo os mais credíveis) parece brotar a ideia de que, não havendo melhor, se deve considerar que este é bom porque o discurso é bom e está a mexer nas coisas em que nunca ninguém mexeu. Nesta parte, reconheça-se todo o mérito (sem ironia), apesar de estético e de o PM não ter ainda percebido (ou fazer de conta que não percebe) que nenhum Governo faz um país, principalmente quando composto unicamente por ministros regulares, acompanhados por um inocente vendedor de imagens salpicadas, que já amanhã, vai colher o mérito de retirar da máquina do estado parte do pessoal que ele e o seu partido lá puseram, há poucos anos. Anedótico. De facto, o discurso é excelente! Mas eu quero mais! Quero uma pessoa que diga que vamos ter todos que “apertar o cinto” e que me deixe apertar o meu próprio cinto a pensar no bem de todos, não um PM que me diz que tem muitas preocupações de justiça e que me vem a casa apertar as goelas enquanto durmo, depois de alguém carregar em F9 e a impressora cuspir um papel que traz na mão, carregado de análises psicadélicas sobre o nível de vida e as estradas alternativas (ex: ruelas). Tudo muito lindo quando a iniciativa vem de dentro. Quando vem de fora, como no caso do abandono dos emigrantes na Holanda, tudo muda. Com um quase beneplácito governamental, denunciado por calmas e diplomáticas palavras doces de um governante na TV, oferece-se publicamente a possibilidade de as vítimas fazerem uma queixa (gente boa, a do Governo!), não vá a representação diplomática servir para alguma coisa ou ser incomodada com miudezas. Tudo a ferros, depois das competentes e naturais cenas de pancadaria e de isto passar repetidamente, há anos, na mesma TV que usam a torto e a direito para deitar foguetes antes da festa! O que muitos deles têm é fome e querem comer comida, não palavras! É aqui que a porca torce o rabo! Entretido na escrita sobre momento tão rico, quase me esquecia da frase que nunca pode faltar: “as sondagens valem o que valem, conforme a direcção e o sentido das setas”. Com opções assim no Governo e na oposição, prevejo que nas eleições de 2009, para muitos bastará olhar para o retrato nas paredes das repartições públicas e “fazer a cruz” em quem lá estiver representado, seja lá o que isso for!
Paulo Loureiro
publicado por Carlos A. Andrade às 18:43
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1 comentário:
De Pedro Carvalho a 30 de Novembro de 2006 às 12:45
O estado de Sócrates
Começo por dizer que é muito mais difícil dizer bem do que mal. Tenho dito que, surpreendentemente, o José Sócrates é o melhor primeiro-ministro, da era pós 25 Abril 74.
Gosto dele. Ao contrário da maioria dos políticos é frio, calado e inflexível. Como alguém dizia, (á imagem da razão e da filosofia), é ordem e sistema.
No entanto, há aspectos que o Pais deveria forçar a corrigir:
o Eventualmente a OTA e o TGV
o Influência (da loucura) da tendência ultra-beata (ultra liberal do Compromisso Portugal) que parecem influenciar a governação, em alguns aspectos
o Apesar da globalização, somos um País pobre (na economia ocidental), na periferia da Europa, que devemos combater, ainda com mais tenacidade.
o Tem-se lutado por menor défice, sobretudo por corte de injustiças na classe média (e média alta, funcionários público incluídos). Os ricos e muito ricos têm passado ao lado da colaboração no combate à crise (a ver vamos o que dá a correcção do IRC dos Bancos, muito céptico).
o Há muitos Países dentro de um Pais.
o Devemos dar protecção (a todo o custo) mas também exigência, para os mais indigentes. Há muitos pobres que não fazem tudo o que poderiam para melhorar as suas vidas.
o Mas também temos quadros, empresários (de pequenas e médias empresas, que não foram ao Beato), técnicos, professores, etc muito competentes, empenhados e ao nível dos melhores, mas silenciosos. Tem que se dar voz a estas pessoas e menos aos Sindicatos e ao Convento do Beato.
o 49% de insucesso na escolaridade obrigatória deveria forçar a desviar as atenções do PIB/Défice. Porque será que a Comissão Europeia não cria um pacto de estabilidade escolar. Este sim, deveria se o verdadeiro compromisso para Portugal.
Também gostaria de referir um aspecto que me irrita profundamente.
Apesar de estarmos numa posição confortável a nível mundial (à volta da posição 30) as pessoas deste Pais precisam, urgentemente, de viver melhor.
A visão financeira (trimestral) que a “qualidade” de um Pais se mede apenas pelo PIB é absurda (ao menos estendamos a análise ao PIB per capita).
Colhi os seguintes dados de http://www.who.int/en/.
Vejamos o que pode ser a manipulação dos números (torturar os dados de forma a responderem como nos convém, a propósito convém ver http://video.google.com/videoplay?docid=4237353244338529080):
A Finlândia:
Total population: 5,249,000; GDP per capita (Intl $, 2004): 30,415;
Total health expenditure per capita (Intl $, 2003): 2,108; Total health expenditure as % of GDP (2003): 7.4
Portugal:
Total population: 10,495,000; GDP per capita (Intl $, 2004): 19,475
Total health expenditure per capita (Intl $, 2003): 1,791; Total health expenditure as % of GDP (2003): 9.6
Conclusões:
Se tivéssemos metade da nossa população actual (ou seja igual à da Finlândia) seríamos mais ricos que eles.
Gastamos mais 2,2% em saúde (em % do PIB) mas gastamos menos (Intl $, 2003) 0,317 por pessoa.

O que o pais precisa não é apenas de controlo orçamental. Precisa de coragem, honestidade, de elevar, a todo o custo, o nível de formação médio da população e deixar de lado a postura do desenrasca.
Termino, de forma a corroborar o aspecto da coragem, que em muitos aspectos falta ao nosso Pais (e ainda mais aos políticos), com um poema de Mário Cesariny.
http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/127069.html
O que vai parar o José Sócrates será o desgaste inexorável do tempo. Mais uma legislatura e pronto. Adeus.

Pedro Carvalho




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