Segunda-feira, 20 de Março de 2006

Jaime Branco - "Ensinar em Portugal: o pesadelo"

Não, não é pelo facto de os professores merecerem tanto a atenção da população em geral, nem sequer por eu próprio o ser. Não passa do título de um artigo que saiu no dia 26 de Fevereiro do corrente ano , no jornal “La Presse” (Canadá), sobre a ignomínia e o opróbio cometidos por alunos, na pessoa de alguns professores, em França. O título original é : Enseigner en France : le cauchemar. Uma busca no “motor” mais conhecido…coloca-nos o texto à disposição, em francês, naturalmente. Li-o. Reli-o devagar. Meditei. E gostaria de fazer algo com os relatos que lá vêm, mas colocaram-se-me várias questões: não seria correcto enviá-lo tal como o li ; não seria correcto fazer uma tradução (já a fiz para mim) e enviá-la…Que fazer, para poder levar um pouco mais de luz a quem tanto critica os professores ou, se conhece o ensino, foi quando estudante, ou então quando ocupou o cargo…por estar no desemprego… E depois vem aqui dizer que até conhece “por dentro” o Ensino.
Por acaso, (..) até se voltou a falar muito do Ensino em Portugal, não só pela eventual “Prova Vocacional” como também com o forte elogio ao ensino finlandês e ainda por causa do Processo de Bolonha. Não vou pormenorizar nenhum destes temas, dado que, sem reflexão, o que sair, não sai pensado e pode ser disparatado. E de disparates estamos nós fartos. Posso apenas acrescentar que, como bacharel, estou perfeitamente à-vontade para falar de “Habilitações Académicas”, de licenciaturas de três anos, de mestres e doutorados. Na família tenho tudo isso, mas não estou preocupado, uma vez que, mesmo que a idade de Reforma se prolongue até aos 80 anos, eu nunca passarei do meu 9º escalão, isto é, atingi o chamado “topo” da “minha” carreira ( não o “topo” da carreira do ensino…). E até fiz acções de formação apenas para mim, sem delas necessitar para a progressão (já “deitei fora” três créditos, voluntariamente), mas é altura de dizer chega!
O que há então de tão extraordinário nessa notícia do “La Presse” ? Pois bem, e resumidamente : o clima de violência que se vive em muitas escolas de França começa a tornar-se incontrolável, sobretudo no equivalente aos nossos 3º ciclo e Secundário, e ainda Escolas Profissionais, onde os alunos se consideram “discriminados” por frequentá-las, pois acham-nas uma segunda escolha. Exemplos de violência física e moral : Karen Montet-Totain, professora de Artes, foi agredida com facadas no ventre, por um aluno de 18 anos, porque este havia tido uma suspensão da frequência das aulas, de cinco dias, suspensão essa motivada pela queixa da professora em questão. Ninguém interfere, nem Associações de Pais, nem Conselhos Executivos, nem Ministério, nada, O silêncio e a impunidade reinam nas escolas de França. Outra situação, com a mesma docente : um grupo de alunos, em plena aula, rodeia-a totalmente, em torno da sua seceretária. Mexem nos seus haveres, no material pedagógico e um aluno grita : “Stora, desejo-a”…. Dias mais tarde a cena repete-se, mas a exigência aumenta : “Stora, desejo-a, depressa, já aqui em cima da mesa” !!
A professora Anne Losada, de 35 anos, parece ser extremamente enérgica, não receia qualquer tipo de aluno e ignora a idade e a corpulência dos jovens. Enfrenta-os com determinação. Ela foi criada num ambiente pobre, conhece bem o vocabulário e a forma de agir daqueles jovens adolescentes, pois parte da sua vida partilhou-a com eles… Se, ao entrar na sala, estiver escrito no quadro “Losada é uma puta”, pois o tema da aula toda será esse mesmo! Contudo, e por muito que conheça sobre jovens difíceis, por ter ela própria vivido em ambiente semelhante, não foi suficiente para resistir a tanto vexame, a tanta humilhação e a tanta miséria moral. Teve uma depressão, em 2005, que durou seis meses. Já regressou ao trabalho, às suas aulas de Francês, mas…segundo ela, quando dá 15 minutos de aula, por cada tempo lectivo, considera-o bem empregue! É o melhor que consegue.
Martine Salzman, após 26 anos de ensino, também não foi capaz de aguentar esta pressão intensa vivida no país da Cidade-Luz. Em plena aula, um miúdo de 12 (doze) anos deu-lhe um murro na cara. Em plena aula! Nos corredores da escola é enxovalhada com o que de pior se pode ouvir. Tal como um colega dela, pelo facto de ser judeu. Esta professora esteve três anos e meio com depressão. Regressou ao trabalho, mas… mas desceu de categoria, passou a “Professora de Substituição”, só faz isso…e ainda por cima num bairro burguês. Claro, agora tem uma vida tranquila (palavras dela)!! Está numa daquelas escolas que nós também sabemos que existem em Portugal, mas, apesar de públicas, a selecção prevalece!
Este é o contexto da notícia que veio a lume no passado dia 26 de Fevereiro/2006. É triste termos de ouvir dizer tão mal dos professores, quando praticamente todos têm histórias idênticas a estas ou vividas na própria pele ou por colegas próximos ; é triste ouvirmos dizer que queremos é férias, que não trabalhamos, que é uma das profissões mais bem pagas do país, enfim…são achegas atrás de achegas para a nossa motivação, o nosso entusiasmo, o nosso empenho e a nossa disponibilidade para tentar ensinar alguma coisa aos vossos filhos.
Já (...) li algures que, antes das famigeradas aulas de substituição, os professores não diziam que as escolas não tinham condições!!! Sempre o dissemos, sempre o diremos (enquanto for verdade) e não é com atoardas dessas que se ganham batalhas e…muito menos, uma guerra!!
Processo de Bolonha?? Ainda é cedo para me pronunciar, mas… em muitos países funciona assim há imensos anos. Depende dos cursos. Mas creio que, o que subjaz a esta medida, é uma questão financeira, não uma questão meramente prática. Se passarem a “bacharéis”, provavelmente nunca chegarão ao 10º escalão. Se a razão for essa, as causas estarão explicadas.
Prova vocacional ?? Ainda não entendi bem a medida. Não conheço as profissionalizações integradas nos cursos. Há anos atrás o estágio era dado com turmas e Orientadores de Estágio a tempo inteiro. Aprendia-se a planificar, a contabilizar o tempo, a motivar os alunos, enfim, era, penso eu, algo de bem diferente, mas…não me sinto habilitado para uma análise aprofundada. De permeio, houve a Profissionalização em Exercício (fui orientador de estágio) e não diferia muito do chamado Estágio Clássico. Li também que todos o fazem, até médicos e advogados, mas… quem escreveu não sabe bem o que pretendia dizer. Não se fazem provas para seguir medicina ou direito, no entanto, só podem exercer concluído o Internato e o Estágio em escritório de Advogados. Mas para fazer o curso…quem tiver médias, claro que entra!!
A Finlândia ?? Ó óbvio que nem tudo são rosas…. Por cá, batemo-nos pela abertura, cada vez em maior número, de Jardins de Infância (Pré-escolar), mas na Finlândia só recentemente é que, aos seis anos de idade, as crianças têm direito ao pré-escolar!! Até aos cinco anos…não têm nada. A Primária começa aos sete anos e o secundário é diferente do nosso. E há mais de dez anos que os finlandeses investem imenso na Educação, fizeram, realmente, do Ensino, a sua verdadeira “Paixão”, começando agora a aparecer os primeiros resultados. E nós, será que temos onze anos de continuada aplicação de dinheiros públicos na Educação? Se durante os próximos 10 anos os nossos governos duplicarem a “fatia” da Educação… veremos se há ou não há progressos visíveis! Parece-me pouco simpático mostrarem-nos escolas-modelo (nas televisões), quando um dignitário do Ministério da Educação sai do seu pedestal para visitar uma escola muito bem arranjadinha, muito eficaz, muito “inn”… Se nem 8 horas para apoios a Matemática, no 3º Ciclo, foram permitidas (e temos professora contratada com horário incompleto…), se nem isso nos é permitido, o que pretende o Ministério? E os maledicentes dos professores? Estão convidados a fazerem-me uma visita
Poderia falar de outros sistemas de ensino, mas por hoje…ponto final!
Jaime Branco

publicado por quadratura do círculo às 18:56
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