Quarta-feira, 1 de Março de 2006

Henrique Silva - Desabafos de professor

Sou um bom professor e como eu há mais.
Sou bom professor porque mesmo sem profissionalização, quando acabei a licenciatura e fui lançado ás feras,
tive que começar a adaptar os meus conhecimentos e as minhas aptidões ás necessidades dos meus alunos.
Ninguém me ensinou a ensinar, fí-lo por instinto. Só mais tarde, depois de 1987, surgiram as profissionalizações.
Sou bom professor porque sei as horas que dedico aos meus alunos, horas que não me pagam, horas sentadas ao
computador a tentar entender para depois ensinar. Horas que passei a estudar na minha formação depois de um dia de trabalho...
Quero que reconheçam o meu trabalho. Tenho esse direito.
Sou bom professor porque não esperei pelo Choque tecnológico do Sr. Sócrates para me valorizar e aprender a ensinar melhor.
Durante mais de 10 anos frequentei todas as acções de formação que abordassem as novas tecnologias e que eram compativeis
com a minha área de residencia e horário de trabalho.
Senti que podia motivar os meus alunos com o computador como eu próprio me motivei.
Era um professor motivado. Em 1999/2000 instalei duas salas TIC nas escolas de Armação de Pêra e Portimão com os meus alunos,
aos fins de senmana. Passando cabo de rede, brocando paredes, subindo a telhados,instalando servidores
Linux sem documentação em português. A MICROSOFT nunca deu nada ninguém e o Linux, código aberto, era a unica
opção já que a escola não tinha dinheiro.
Era um Professor motivado. Estabeleci contactos entre alunos de informática da Universidade do Algarve e alunos do
ensino básico de forma a motivar os segundos para as novas tecnologias de informação, paguei os transportes do meu próprio bolso.
Continuo a ser um bom professor e sinto que ao fim de 22 anos de ensino tive e tenho a "sorte" de poder trabalhar em algo que
realmente gosto de fazer: Ensinar.
Mas sou agora um professor desmotivado porque mesmo sabendo a minha condição de professor de História no ensino básico algures na provincia,
não tenho grandes pretenções a ser ouvido ou lido por vós doutos comentadores da nossa televisão mas... Tenho o direito
de ser respeitado por este ou qualquer governo deste país e por aqueles que fazem as opiniões das pessoas.
Estas medidas de tábua rasa na Educação, tratando todos como maus exemplos, têm consequências muito graves em profissionais
que têm brio na sua carreira. Os Enc. de Educação que já eram desresponsabilizados têm agora o campo aberto. A escola têm que fazer o que eles não fazem...
Sou agora um professor desmotivado. Há tanto que fazer e aprender para depois ensinar e eles fecham-me numa sala
com quatro paredes um quadro e alunos revoltados que falam linguas tão diferentes como: criolo, sérvio, russo, guineense etc.
Pensam que existe alguma politica de integração destes jovens nas escola ou na sociedade?
Querem que aceite esta degradação no meu trabalho com um sorriso nos lábios? Ao fim de 22 anos? Em nome de quê?
Gostaria de ouvir dizer a verdade na Televisão: "A verdadeira responsabilidade de termos chegado a
este estado no ensino é da classe política". Eles têm jogado com essas centenas de milhares
de votos (os funcionários públicos). E continuam a fazê-lo.
Não era preciso termos ido tão fundo se os nossos governantes fossem pessoas sérias no seu trabalho, nem o Sr.Nuno Monteiro
precisava de encontrar tantos vícios nas escolas e nos professores portugueses. Nem ele nem as televisões fazem uma análise séria se não apontarem o dedo aos verdadeiros responsáveis. Não fazem uma avaliação séria porque não colocam o dedo na ferida. Tudo é da responsabilidade dos
professores até o próprio ministério...
Sócrates, o reformador, também escondeu as reformas que pretendia fazer, aos Policias, Juizes, Professores etc. Os politicos pouco sérios e os comentadores complacentes com a mentira têm o futuro garantido em Portugal e até se completam.
Henrique Silva
publicado por quadratura do círculo às 19:43
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1 comentário:
De Bruno Miguel Rosa a 21 de Junho de 2007 às 00:04
Caro senhor docente, apesar do fraco reconhecimento por parte do ministério da educação, não queria deixar de lhe mostrar o meu apoio de ex-aluno. Após leitura cuidadosa de todo o seu comentário, queria felicitá-lo por todos os seus 22 Anos de esforço, dedicação e motivação com que prestou serviços como docente. Em segundo lugar, reconheço todo o seu valor, como tal gostaria de lhe pedir, na qualidade de antigo aluno, que tenha coragem e motivação para mais uns tantos anos.

Aos senhores ministros, deixo aqui umas pequenas palavra de angustia por ter assistido de perto a alguns tantos professores nas mesmas condições. que percorrem centenas de quilómetros desde suas casa para que os seus alunos tenham os ensinamentos a que têm direito e que depois de tanto empenho e dedicação acabam por deixar alguma ou mesmo grande parte da motivação ao verem todo um esforço e projecto de uma vida cair por terra ao verem o seu trabalho não reconhecido..

Bem haja!!
Bruno Miguel Rosa


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