Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2006

Pedro Moreira - E agora, Turquia?

Ainda bem que aconteceu o episódio das caricaturas! É que ao contrário do que muitos pensam, este acontecimento apenas veio mostrar ao mundo algo que já existia e que especialmente nós, europeus, andamos incompreensivelmente a ignorar.
O que se está a passar é uma guerra de religiões e uma guerra de civilizações. Em simultâneo e ambas unilaterais. Ou seja, pelo ponto de vista dos radicais islâmicos, o assunto é religioso e tudo o que pensam é condicionado e imposto pela religião. Pelo nosso lado - as democracias ocidentais - o problema é civilizacional. Há de facto uma crescente incompatibilidade entre duas civilzações assentes em bases completamente distintas. Os valores duma não são tolerados pela outra. E nem vou perder tempo a defender os valores que as presentes sociedades ocidentais têm, que muito prezo e que não estou disposto a deles abdicar. Entre os quais a tão falada liberdade de expressão. Não porque não ache interessante e necessária esta discussão mas porque, para além de muito já se ter escrito e dito, o "meu" tema é outro,
Estranho e não compreendo que com este episódio não se tenha discutido (especialmente na Quadratura do Círculo e em particular pelo Pacheco Pereira, aquem estes dois temas - a europa/UE e as clivagens civilazacionais - são tão caras), nem tão pouco mencionado de passagem, algo que no meu entender vai ter enormes consequências na nossa (portuguesa e europeia) vida futura - seja qual for o seu desfecho: a questão turca.
Bem sei que as questões da união europeia (UE) não despertam grande interesse nos respectivos povos, por várias razões. Uma delas é precisamente a sensação de distanciamento e desfazamento entre nós - o povo - e eles. E o que são eles, que tão bem ilustrado ficou neste providencial episódio dinamarquês? São uma casta de tecnocratas burocratas completamente alienados da realidade, mergulhados no seu País-das-Maravilhas europeu onde, no meio das toneladas de normas e regulações que produzem sobre tudo o que mexe com o objectivo de padronizar as nossas vidas, despotica e levianamente nos conduzem através das suas vistas míopes afectadas pelas tantas letrinhas miúdas que produzem.
O problema é que já não conseguem vêr para além disso. E se juntarmos umas doses de hipocrisia, incoerência, complexos de culpa e de superioridade moral mal resovidos e ainda alguma cobardia, o desnorte é total.
Relembremos apenas de passagem alguns episódios recentes: uma constituição europeia feita e pensada como sabemos e com o fim conhecido.
Posições políticas incompreensíveis tendo em conta a realidade dos factos. Vejamos: A UE apoiava a Fatah e Arafat, apesar das suas dúbias ligações ao terrorismo. Espera apenas que o Hamas renuncie pela palavra ao terrorismo e reconheça o estado de israel para da mesma maneira o apoiar. Por outro lado, tem dentro do seu seio um estado - a espanha - que ilegalizou um partido político histórico, alegando ser o braço político da ETA, um grupo terrorista. Outro estado - a bélgica - foi mais longe e ilegalizou um partido apenas por discordância política, ignorando a sua legitimidade, implementação e aceitação na sociedade belga, expressa através da elevada votação que teve.
E esta europa que não tem problemas em dizer que espera que alguém eleito democraticamente defraude quem o elegeu, mudando os pressupostos que sustentam a sua acção política e que lhes confere a legitimidade popular? Foi o que pediram ao Hamas. Não seria natural que aceitassemos a escolha do povo palestiniano como legítima democraticamente e que, democraticamente tomassemos posição? É que os povos, em democracia, têm que ser igualmente responsáveis pelas suas opções. E responsáveis pelas consequêcias dessas mesmas opções.
E a posição de indefinição face á Rússia, de que este episódio de Putin chamar o Hamas para conversações de paz bi-laterais, é elucidativo? Hamas esse que a rússia, alías, não considera como terrorista. Poderá a europa tomar idêntica iniciativa e tentar promover a paz na rússia chamando a Bruxelas representantes do movimento tchetcheno, legitimando-os automaticamente como tal?
As posições da UE face à pobreza, em particular em África são grotescas. Se por um lado contribui com elevadas somas em ajudas humanitárias entregues a estados totalitários, corruptos e muitas vezes sanguinários, por outro mantêm esses mesmos regimes quer através de acordos comerciais ou simples negociatas bi-laterais. Mas o mais gritante é a acção política na práctica. Enquanto o discurso aponta numa solidariedade ao combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento económico desses países, a realidade joga-se com Políticas Agrícolas Comuns. Esse sim, um dos maiores entraves ao progresso e subsistência de muitas economias do 3º mundo.
Para não mencionar o triste exemplo de seriedade que demonstraram durante o processo de integração dos novos membros da união, face ao orçamento comunitário e respectivas contribuições...
Enfim, os exemplos são inúmeros sobre o modo da EU - a europa - se comportar. E isto determina obviamente o rumo que segue, ao sabor do vento, em direcção ao desconhecido. A política da UE tem sido, em casos de extrema importância, uma fuga em frente, sem querer enfrentar os problemas reais e a sua consequente discussão pública, o mais alargada possível. Porque fora do País-das-Maravilhas onde vivem, existe o país real. Mais, os países...
Pretendo apenas tentar enquadrar o incidente das caricaturas e o que está por trás das várias reacções ao mesmo, a europa e a UE com os seus problemas identitários (quem sou? que fazer? como fazer? para onde vou? com quem?...) e a questão da possível entrada da Turquia para a UE. E o assunto Turquia não pode deixar de ser visto à luz destes acontecimentos.
Em face disto, é imperioso que não se cometam os mesmos erros, pelas mesmas pessoas e com os mesmos objectivos. É que esta questão vai ser determinante no futuro da nossa sociedade, seja qual for o rumo que seguirmos.
Pedro Moreira

publicado por quadratura do círculo às 18:22
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds