Terça-feira, 31 de Janeiro de 2006

Amora da Silva - Ser Professor (resposta a Maria João Vieira)

A resposta de Maria João Vieira é uma boa amostra do teor das muitas que surgiram em blogs e jornais desde o início do governo de José Sócrates no qual devo dizer que não votei mas que me tem surpreendido pela positiva.
Mais do que análises racionais trata-se de expressões emotivas traduzidas em lamentos lamentos e queixas que nessa medida não podem ambicionar a ver melhor ou a esclarecer mas apenas a aliviar. E quanto mais intensa é a emoção menor é a razão.
Vejamos. Nuno Monteiro pode não ser professor mas mostra ser um cidadão atento que ao contrário da professora, mostra conhecer alguns factos. E factos são factos. Ainda que deles possamos fazer leituras diferentes não é sensato arreliarmo-nos com eles ou negá-los. Teremos de questionarmo-nos se eles traduzem ou não a realidade. Ora, é verdade que:
- 90% das despesas do Ministério da Educação são para ordenados;
- Os resultados dos nossos alunos, aferidos internacionalmente (PISA) nos
colocam nos últimos lugares
- Os professores portugueses são aqueles que mais ganham por relação ao PIB
– 139% em início de carreira chegando no topo aos 320% (se a subida no ordenado correspondesse a uma melhoria profissional seria excelente!)- Estes dados poderão ser consultados na publicação «Chiffres Clés de l’éducation en Europe 2005 na Internet em http://www.eurydice.org/Doc_intermediaires/indicators/fr/frameset_key_data.html
- Todos os professores chegam ao topo da carreira e todos em igual espaço de
tempo. Pelo que é aceitável afirmar que se existe avaliação ela é uma farsa.
- A gestão das escolas formada por professores é eleita por professores.
- A formação dos professores respondia aos interesses dos professores e não
aos problemas das escolas.
- O número de alunos por turma (temos de falar em média, por que há turmas
de um aluno) é inferior a 22.
Estes são alguns dos factos apontados por Nuno Monteiro que a professora não desmente. Poderíamos acrescentar muitos outros factos incluindo os que mostram grandes injustiças e desequilíbrios dentro da classe docente (numa classe onde a avaliação é uma farsa só pode existir irresponsabilidade e
iniquidade): Professores que nunca ou quase nunca deram aulas (sindicatos, direcções regionais, serviços centrais); professores novos com os piores horários, as piores turmas e nas piores escolas e assegurando o maior número de aulas; professores deslocados e andando de trouxa às costas ano após ano.
Mas destes os sindicatos não curam.
Leio a prosa da professora Maria João e acredito na sinceridade do seu empenhamento, da sua alegria, do seu gosto de ensinar, da sua paciência e mesmo do significativo empenho de “passar o teste a computador para que este seja legível para os alunos”. O que me parece também é que um empenho tão intenso e tão exclusivo do lugar em que o põe lhe impedem um olhar mais alto e mais largo que a transportem da paixão à razão e a possam a levar a aceitar que outros cidadãos, ainda que não conheçam a realidade por dentro a possam exprimir e criticar. Então só os professores podem falar de educação?
Os juizes de justiça? Os médicos de saúde? É tempo de colocar as questões do lado dos servidos e não dos servidores. Para bem também dos servidores.
Sem pretensões de a ensinar ou criticar, gostaria, professora, de lhe lembrar, para ajuda da compreensão objectiva da realidade, a frase de F.
Nietzsche: «O amor é o estado em que as pessoas mais vêem as coisas da maneira como elas não são».
Tente o salto epistemológico e verá que há ciência para além da paciência.
Amora da Silva
publicado por quadratura do círculo às 19:50
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