Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2005

Ricardo Costa Mendes - Ota e TGV

Estes investimentos promovidos pelo Estado português preocupam-me imenso. O que está em questão não é só o seu financiamento e o risco do Estado vir a ter um envolvimento mais significativo do que aquele revelado pelos estudos.
A questão é bem mais complexa do que isso, e tem a ver com a qualidade do crescimento económico ao longo da segunda metade da década de 90.
As taxas de crescimento na altura foram influenciadas por uma forte dinâmica na Construção Civil de habitação própria, a que se associou a crescente importância do crédito hipotecário. A Banca empresta aos construtores para construir, depois aos consumidores para adquirem a casa cuja construção ela própria financiou. Actualmente, são os particulares que representam a maior parte do negócio bancário e não as empresas. O problema é que este negócio concentrou capital financeiro nestes operadores, Construtores Civis e Banca, ficando uma parte significativa da capacidade de investimento da economia dependente das suas decisões de gestão. Ora, se é necessário uma reconversão industrial, uma aposta na inovação e na transferência de tecnologias para o sector exportador, competitivamente debilitado, o Estado não deveria dar oportunidade a estes operadores de continuar a remunerar os seus capitais à «moda antiga». Com a procura de casa e as obras públicas a diminuir de valor e importância, os bancos e os construtores seriam obrigados a rever a sua carteira de negócios, comprando participações estratégicas em outros sectores mais dinâmicos, com maior probabilidade de crescimento. Quais os sectores com mais probabilidade de crescimento? Os sectores com maior intensidade de conhecimento e tecnologia. Repare-se que, dentro deste raciocínio, não é surpresa o aumento da presença dos Grupos Financeiros no sector da saúde. Como também não o é, o aumento da participação dos construtores civis nas energias renováveis.
Quanto aos investimentos propriamente ditos gostava de deixar alguns
comentários:
O novo aeroporto de Lisboa parece-me necessário desde que verdadeira a impossibilidade de ampliar a Portela e fazer face a procura futura. O que me parece é que as previsões de trafego são pouco consistentes com as taxas de crescimento económico potencial da economia portuguesa. Contudo, não tenho informação suficiente para ser preciso na conclusão.
O TGV é ,na minha opinião, um investimento faraónico. Portugal apresenta uma estrutura ferroviária de urbanos, suburbanos e regionais deficiente. E esta deveria ser a grande prioridade, por trazer benefícios sociais e ambientais largamente superiores. O TGV não resolve os problemas da mobilidade interurbana e intraurbana. Portanto, essencial é o desenvolvimento dos metropolitanos e das ligações ferroviárias normais. O TGV compete directamente com o transporte aéreo, apresentando aqui várias vantagens ambientais ( Será que na OTA prevê-se uma diminuição dos voos domésticos e de origem em Madrid ou Barcelona?). De resto, tem poucas implicações no bem-estar da população. Como este investimento implica a mobilização de avultados recursos acaba por prejudicar, note-se que os recursos são escassos, a estrutura ferroviária comum. Mais, como o TGV será utilizado por agentes económicos de maior poder de compra, ele em si, constitui um imposto oculto sobre outros agentes com menores recursos, aqueles para os quais uma rede ferroviária e de metropolitano mais alargada e eficiente tem muito mais valor. Na ligação Lisboa - Porto não se dará o caso de o serviço alfa pendular em vez de num futuro próximo estar mais rápido, vir a ficar ainda mais lento, obrigando o simples cidadão que quer ir ao Porto, ter que ir obrigatoriamente de TGV? É que se assim acontecer, teremos mais um imposto oculto a incidir sobre os actuais utentes do serviço pendular que se vêm obrigados a ir de TGV e pagar mais caro contra as suas próprias necessidades. Por último, refiro-me especificamente a um dos argumentos que tem sido veiculado como favorável ao TGV: o facto de sermos periféricos, da Espanha já o ter e da estação que dá acesso a Portugal poder ficar em Badajoz.
Meus amigos, isto são argumentos provincianos:
Primeiro, rejeito liminarmente a ideia de que somos periféricos. Nós, como nação, temos que contribuir e acrescentar valor na rede económica, social e civilizacional do mundo. Estas são as dimensões estratégicas para Portugal, não há mais nenhuma. Nós, portugueses ,temos que reforçar os nossos projectos individuais de vida e culminar num projecto colectivo substantivo.
Se tivermos valor a acrescentar à rede mundial não seremos nunca periféricos.
Segundo, nós devemos juntar forças para termos aquilo que nos é útil e inteligente, e não aquilo que o vizinho tem ou deixa de ter. Nós devemos cimentar o orgulho nacional na inteligência com que nos relacionamos e reinventamos o dia a dia, e não em obras para comparação ostensiva.
Terceiro, Badajoz. O que é Badajoz? Um terço de Braga? Os turistas estrangeiros que não espanhóis entrarão em Portugal por avião, quer seja em Low-cost ou em companhias de bandeira. E os Espanhóis de Madrid e Barcelona vão empreender uma viagem só até Badajoz? Pergunto novamente: Vão ficar em Badajoz? Claro que não. Não ponho em dúvida que o TGV faça sentido em Espanha, é uma questão interna deles. Aqui é que não.
Ricardo Costa Mendes
publicado por quadratura do círculo às 21:46
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