Terça-feira, 22 de Novembro de 2005

Jorge Costa - Sexo dos anjos

Em 1453, enquanto Constantino XI tentava resistir à destruição do Império Romano do Oriente pelos turcos, num Concílio as autoridades cristãs mantinham acaloradas discussões e compraziam-se a tentar determinar, pelos vistos assunto momentoso para a época, qual seria o sexo dos anjos.
O Imperador e milhares de cristãos morreram, Constantinopla e o Império foram conquistados por Maomé I e o sexo dos anjos, passados todos estes séculos, continua por determinar!
Ainda que pouco dados a questões esotéricas, se bem que cheios de fé, os portugueses ou melhor, as suas elites fazem frequentemente lembrar os renomados sábios da Antiguidade.
Discutem muito, mas produzem pouco ou nada, e as questões em vez de se solucionarem agravam-se. Para além de que mudam frequentemente de opinião durante a discussão, tornando-se os maiores adversários daquilo que anteriormente defendiam tão empenhadamente.
Infelizmente, a actualidade fornece-nos vários exemplos, vide o caso do TGV. Quem assinou acordos calendarizados com Espanha para cinco linhas, agora não quer nem uma.
Um dia alguém se lembrou que seria interessante construir uma grande barragem no Alentejo, o Alqueva, que poderia propiciar a irrigação e outros benefícios a um terço de Portugal. Durante quase 70 anos discutiu-se animadamente o constrói não constrói, com centenas de estudos a favor e contra, milhões de contos gastos no seu pagamento e barragem nem vê-la. Provavelmente os custos da indecisão foram superiores aos que à época custaria a efectivação da obra.
Finalmente, na década de 90 do século passado, inicia-se a obra. O projecto, passados estes anos todos, ainda está longe da sua conclusão. Muito dinheiro gasto depois, como ainda subsistem indecisões quanto ao rumo a dar, os benefícios vão tardando para desespero dos naturais e residentes da região, desconhecendo-se quer a data desse desiderato quer o custo final da obra.
No início de consulado de Marcello Caetano, face ao envolvimento urbano do Aeroporto da Portela e o perigo para a cidade e seus habitantes que isso representava, alguém se lembrou que seria uma óptima ideia construir, fora da cidade, um novo aeroporto.
Ninguém questionou a bondade da obra, também apesar de todas as aberturas e ainda que alguns o pretendam fazer esquecer, os tempos eram pouco ou nada favoráveis a discordâncias frontalmente assumidas.
Mas mal parecia que uma obra dessa envergadura pudesse ser feita sem polémica, e assim surgiram partidários de várias localizações possíveis. Uns defendiam que se deveria construir a sul do Tejo, outros a norte. Estava lançada a confusão que se tem vindo a arrastar até hoje!
Como o assunto não avançou, em termos práticos, rigorosamente nada apesar dos vários milhões já gastos em estudos, a cidade foi apertando cada vez mais o aeroporto e qualquer um pode ter uma experiência única em qualquer capital europeia, que bem aproveitada até poderia ser um must turístico.
Quem na Europa se poderá gabar, por pura ilusão de óptica, de sentir a necessidade de estabelecer prioridades de passagem com um avião que parece cruzar-se à sua frente nalgumas das principais avenidas da capital?
Quem como os lisboetas pode evocar como causa de insónias ou de depressão nervosa o constante barulho dos aviões a levantar e aterrar por cima das suas casas? Ou vendo o que se passou em Nova Iorque, no 11 de Setembro, imaginar o que acontecerá se por acidente ou voluntariamente cair algum avião no centro da cidade?
Se há quinhentos anos as nossas elites fossem tão eficientes, ainda hoje Bartolomeu Dias, Tristão Vaz Teixeira, Diogo Cão, Pedro Alvares Cabral e Vasco da Gama estariam entretidíssimos nalguma esplanada da zona de Belém, a beberem umas bejecas e a bater uma bisca lambida ou a jogar uma partida de dominó, fazendo horas para o embarque.
Não teriam dado os tão celebrados novos mundos ao mundo.
Para o estado em que estão, África e América do Sul, provavelmente estar-nos-iam agradecidos ainda que desconhecessem do que se tinham livrado.
Nessa altura os velhos do Restelo foram derrotados, o que nos permitiu dourar os nossos pergaminhos históricos com a saga dos Descobrimentos.
Que a História se repita, são os votos veementes, ou será que seremos nós (portugueses) a finalmente determinar o Sexo dos Anjos!
Jorge Costa
publicado por quadratura do círculo às 19:09
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds