Terça-feira, 20 de Julho de 2004
Agora que acabou o Euro do nosso (des)contentamento,
são muitas as pessoas que vêem a sua vida preenchida
por um enorme vazio. Falo por mim que, desde então,
não consigo dar um rumo à minha vida. Deixei de saber
o que fazer com os animados fins de tarde princípios
de noite, com as valentes bebedeiras que se seguiam a
cada novo triunfo da nossa selecção ou mesmo com as
inúmeras bandeiras que adquiri, ou com as muitas
camisolas com as cores nacionais que, orgulhosamente,
envergava em cada novo jogo. Dou comigo a buzinar como
louco na estrada a qualquer hora da noite ou do dia e
a berrar a plenos pulmões por "Portugal, Portugal". Os
meus amigos já tentaram fazer-me entender que a vida
continua e que devo voltar ao emprego pois, segundo
eles, corro o risco de o perder. Coisa que eu não
acredito, pois o senhor Matias, o patrão, também
torcia por Portugal com o mesmo entusiasmo com que eu
o fazia. Ele vai compreender, tenho a certeza. Ainda
assim, o que me vai valendo nestes dias mais tristes é
o vídeogravador. Que grande invenção! Permitiu-me
gravar todos os jogos da competição e agora não há dia
em que, pontualmente às 19h45m, não me sente em frente
ao televisor para rever aqueles grandes momentos. A
casa é que está a precisar de uma arrumadela, pois já
nem os telecomandos consigo encontrar no meio de
tantas garrafas de cerveja e cascas de tremoços e de
pevides. E a culpa é da Manela, a minha patroa. Que
não aguentou a nossa derrota na final e fugiu de casa
com um adepto do Burkina Faso. Mas ela há-de voltar.
Assim que descobrir que esses gajos nunca participaram
num campeonato da Europa de futebol, vai-me suplicar
para que a receba de volta. Mas até lá, tenho outros
planos. Entre um jogo gravado e outro, vou até à praia
de bandeira de Portugal debaixo do braço e estendo-me
à torreira do sol. Sim, porque se toda a gente usasse
agora como toalhas de praia as bandeiras que compraram
aquando do Euro, talvez o país se pintasse de novo com
as nossas cores. Até porque vêm aí as Olimpíadas e a
selecção de todos nós vai voltar a precisar do nosso
apoio incondicional. É que, desta vez, somos nós que
vamos à Grécia ganhar os Jogos Olímpicos. Força
Portugal! Eu estou contigo.
Miguel Teixeira