Terça-feira, 31 de Janeiro de 2006
Pretende, assim, Manuel Alegre criar um movimento aberto, plural e transversal de cidadãos orientado para a discussão de grandes temas, sem objectivos político-partidários, mas cuja base de apoio foi extraída de um quadro eleitoral em que um número significativo de votantes apoiou um candidato, concorrente ao exercício do cargo mais elevado da magistratura política.
Os eleitores que viabilizaram a manutenção do segundo lugar para a candidatura de Manuel Alegre, quase obrigando o eleitorado de novo a pronunciar-se numa segunda volta, fizeram-no, não por se tratar de um Manuel Alegre, candidato independente do espectro político-partidário, mas de um Manuel Alegre, membro e militante histórico do Partido Socialista, actual deputado parlamentar e vice-presidente da Assembleia da República. Pelas mais variadas razões, essa massa eleitoral não aceitou de bom grado o apoio dado pelo Partido a Mário Soares, igualmente conotado com a ala esquerda do PS, e, a leitura do resultado do escrutínio a favor de Manuel Alegre, mais não significa do que pretender exercer o seu direito de veto no âmbito daquilo a que poderíamos chamar de uma magistratura da militância político-partidária, dando assim uma lição nas hostes da comissão política daquele Partido que, na altura, conheceu uma grande contestação interna à sua decisão.
Em qualquer das situações, quer aquele movimento se venha a converter em partido político, ou venha a funcionar como porta-voz das aspirações políticas independentistas de mandatários, coordenadores e apoiantes pessoais da campanha presidencial de Manuel Alegre, tratar-se-à de uma agremiação política desde já votada ao fracasso. Por um lado, a esquerda e o centro-esquerda do nosso sistema partidário já se encontram exaustivamente disputados pelas várias forças politico-partidárias, inclusive de direita, que a cada eleição se digladiam pela posse dos seus votos e, por outro lado, já se constituíram tantos foruns para o debate de grandes temas, existem na blogosfera inúmeros espaços dedicados à abordagem dos grandes temas da nossa actualidade, em que o cidadão pode participar - sem sair de casa abertamente, com pluralidade e de uma forma transversal.
Acredito nos partidos políticos constituídos a partir de uma base ideológica fundamentada nas várias correntes filosóficas do pensamento humano, adaptada à vertente tecnocrática, economicista e sociológica do mundo em que vivemos. Existe uma crise de valores no actual sistema partidário, à qual não podemos ser alheios, mas, por outro lado, talvez o aparecimento de novas estruturas partidárias não seja a solução, mas sim a renovação e reconfiguração das existentes, num quadro de maior exigência de qualidade e integralidade dos seus dirigentes.
Fernanda Valente